“Não existe ordem natural que prepare uma mãe para se despedir de um filho. Ainda assim, algumas mulheres precisam encontrar forças para continuar vivendo depois da mais profunda das perdas.”
Quando a dor de uma família toca todas as mães
Confesso que escrever sobre este tema me causa angústia. Talvez porque sou mãe. Talvez porque já estive perto demais da possibilidade de perder um filho. Ou simplesmente porque existem dores que nem gostamos de imaginar.
Nesta semana, uma criança da escola do meu filho caçula faleceu. Como acontece sempre que uma notícia assim chega até nós, muitas mães foram profundamente impactadas. No grupo da sala, o clima era de tristeza e inquietação. Uma mãe relatou que passou o dia inteiro com o coração apertado, sentindo uma dor no peito difícil de explicar. Outra tentou trabalhar, mas não conseguia se concentrar. A notícia voltava à sua mente a todo instante. Cada uma reagiu à sua maneira, mas todas foram tocadas de alguma forma.
A maioria de nós sequer conhecia a criança ou sua família. Ainda assim, para se solidarizar com uma dor, não é preciso ser amigo. Basta ser humano. Basta, sobretudo, ser mãe.
Uma dor que só quem vive conhece
Costuma-se dizer que, quando uma mãe perde um filho, todas as mães perdem um pouco também. Entendo o sentido dessa frase, porque uma notícia como essa desperta nossos medos mais profundos e nos faz abraçar nossos filhos com mais força. Mas acredito que existe uma distância impossível de ser percorrida entre imaginar essa dor e vivê-la.
Podemos nos emocionar, chorar, participar do velório e do enterro. Podemos sofrer ao testemunhar a dor daquela família. Porém, ao final do dia, voltamos para casa e encontramos nossos filhos. A mãe que enterrou seu filho também volta para casa, mas encontra um vazio que ninguém consegue preencher. Encontra a saudade, o silêncio e uma ausência que passa a fazer parte de sua história.

Histórias que ficaram marcadas em mim
No meu livro Filhos: Nosso Amor Mais Lindohttps://elainematos.com/filhos-nosso-amor-mais-lindo/, menciono duas mães que perderam seus filhos.
Uma delas conheci durante a faculdade. Seu filho faleceu aos 20 anos, vítima de leucemia. Lembro-me da noite em que recebi a notícia. Era um domingo. Eu estava jantando quando uma colega me ligou para contar o que havia acontecido. Desabei em lágrimas. Chorei de forma intensa, especialmente quando ouvi relatos sobre como minha amiga estava enfrentando aquele momento.
Nós nos formamos juntas. Ela é uma profissional admirável e, durante algum tempo, chegou a ser minha terapeuta. No entanto, eu não conseguia me sentir à vontade para falar dos meus filhos diante dela. Talvez porque soubesse que existia uma dor em seu coração que eu jamais conseguiria compreender completamente.
Ela seguiu sua vida. Continua trabalhando, ajudando pessoas e honrando as promessas que fez ao filho. Aos olhos de muitos, pode parecer forte. E de fato é. Mas aprendi que seguir em frente não significa deixar de sofrer. Aprendemos a caminhar com algumas dores.
Outra amiga perdeu seu primeiro filho quando ele tinha apenas um mês de vida. O sofrimento foi devastador. Com o passar dos anos, ela reconstruiu sua vida e tornou-se mãe novamente. Hoje tem outro filho, mas isso não apagou a existência do primeiro.
Quando alguém pergunta quantos filhos ela tem, sua resposta é firme e convicta: “Tenho dois filhos”.
Acho essa resposta profundamente bonita. Porque o amor não desaparece com a morte. O filho que partiu continua ocupando um lugar único em seu coração, em sua memória e em sua história.

Quando o amor e a dor caminham juntos
O psicanalista Nasio afirma que a dor de uma mãe que perde um filho é uma dor que beira a loucura. Não tenho dúvidas disso. Afinal, apenas imaginar essa possibilidade já é suficiente para nos desorganizar emocionalmente.
Freud escreveu:
“Nunca estamos tão mal protegidos contra o sofrimento como quando amamos; nunca estamos tão irremediavelmente infelizes como quando perdemos a pessoa amada ou o seu amor.”
Talvez essa seja uma das maiores verdades sobre o luto. A intensidade da dor revela a intensidade do amor. Sofremos porque amamos. E amamos profundamente.
Nasio complementa esse pensamento ao afirmar que:
“O amor é sempre a premissa insuperável dos nossos sofrimentos. Quanto mais se ama, mais se sofre.”
Luto prolongado: quando o sofrimento precisa de atenção especializada
Quando falamos sobre a perda de um filho, também é importante compreender que o luto pode assumir diferentes formas. Existe o chamado Transtorno do Luto Prolongado, reconhecido pelos manuais diagnósticos atuais.
Embora cada pessoa tenha seu próprio tempo para viver o luto, alguns sinais podem indicar a necessidade de acompanhamento especializado. O transtorno costuma ser diagnosticado quando os sintomas persistem de forma intensa após um período prolongado, comprometendo significativamente a vida da pessoa.
Estudos mostram que sua ocorrência é mais frequente após a morte de um filho do que em outras relações de parentesco.
Além disso, podem surgir transtornos associados, como depressão, transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) e problemas relacionados ao uso de álcool ou outras substâncias.
As consequências do luto para a saúde física e emocional
O sofrimento intenso provocado pela perda de alguém pode afetar profundamente diferentes áreas da vida.
Entre as consequências mais comuns estão:
- Dificuldades no trabalho e nos estudos;
- Prejuízos nos relacionamentos sociais;
- Isolamento social;
- Aumento do consumo de álcool e tabaco;
- Maior vulnerabilidade a doenças cardiovasculares;
- Comprometimento do sistema imunológico;
- Câncer;
- Redução significativa da qualidade de vida.
Por isso, acolher o sofrimento e buscar ajuda quando necessário não é sinal de fraqueza, mas um importante cuidado com a própria saúde.

O papel da fé diante da perda
A espiritualidade pode ser um importante amparo diante da dor. Já ouvi muitas mães relatarem que, sem a fé, não teriam encontrado forças para continuar vivendo após a perda de um filho. Não porque a fé elimine o sofrimento, mas porque oferece algum sentido quando tudo parece não ter explicação.
Como católica, posso dizer que, quando perdi meus pais, atravessei momentos muito difíceis. A saudade permanece até hoje, mas a dor já não ocupa o mesmo lugar. O que me sustentou foi a esperança do reencontro, a certeza de que o amor não termina com a morte.
Cada pessoa vivencia o luto de acordo com suas crenças, valores e experiências. Não existe uma única forma de enfrentar uma perda tão devastadora. Mas, diante da morte de um filho — a dor mais profunda que um ser humano possa experimentar — qualquer fonte de apoio se torna preciosa: a fé, a família, os amigos, a terapia e a comunidade.

O amor que permanece
Não existem palavras capazes de reparar uma ausência tão grande. O que podemos oferecer é presença, acolhimento e respeito ao tempo de quem sofre.
O amor continua existindo. Apenas aprende, aos poucos, a conviver com a saudade.
E talvez seja justamente isso que mantém tantas mães de pé: a certeza de que o amor por um filho não morre. Ele permanece, mesmo quando os braços já não podem abraçá-lo.
Uma mensagem para as mães que vivem essa saudade
Se você é uma mãe que perdeu um filho, saiba que este texto foi escrito com profundo respeito pela sua história.
Não ouso dizer que compreendo sua dor, porque algumas experiências só podem ser conhecidas por quem as vive. Mas quero que saiba que sua maternidade continua existindo. O amor que você sente continua existindo. Seu filho continua fazendo parte da sua história.
Talvez existam dias em que a saudade chegue de forma mais intensa. Dias em que as lembranças machuquem mais. Dias em que o mundo pareça seguir em frente rápido demais.
Mas desejo que existam dias em que você consiga sorrir ao lembrar. Dias em que o amor fale mais alto que a ausência. Dias em que encontre conforto nas memórias, na fé, na família ou nas pessoas que caminham ao seu lado.
Seu filho jamais será esquecido por você. E ninguém deveria esperar que fosse.
Que Deus acolha cada mãe que carrega essa saudade no coração e conceda força para seguir um dia de cada vez.
Com carinho e respeito,
Elaine Matos

Fonte: A Dor de Amar - J.-D.Nasio
Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais - DSM - 5 - TR
