Adolescência não é “aborrecência”: o que a ciência realmente nos ensina sobre essa fase da vida

“Meu filho mudou completamente.”

Pexels –  Ander Masó

Essa é uma das frases que mais escuto de pais quando seus filhos entram na adolescência.

Aquele menino carinhoso agora prefere ficar trancado no quarto. A menina que contava tudo passa a responder com monossílabos. As discussões aumentam, as emoções parecem intensas demais e muitos pais se perguntam: “Onde foi parar meu filho?”

Durante muito tempo, chamamos essa fase de “aborrecência”, como se ela pudesse ser resumida à rebeldia, aos conflitos e às mudanças de humor. Mas a ciência nos mostra que essa explicação é simplista.

Os hormônios influenciam o comportamento, mas eles não explicam tudo. A principal transformação acontece dentro da cabeça do adolescente: seu cérebro ainda está em pleno desenvolvimento. E esse processo de maturação cerebral costuma se estender até cerca dos 25 anos de idade, especialmente nas áreas responsáveis pelo planejamento, pelo autocontrole e pela tomada de decisões.

Quando entendemos isso, deixamos de enxergar muitos comportamentos como falta de educação ou provocação e passamos a compreendê-los como parte de um processo complexo de amadurecimento.

Isso não significa aceitar qualquer comportamento inadequado. Significa educar com conhecimento, empatia e responsabilidade.

A preparação para a adolescência começa muito antes dela

Nós nos preparamos para o bebê… mas quase nunca para o adolescente.

Quando descobrimos uma gravidez, imediatamente começamos os preparativos. Procuramos um obstetra, organizamos a alimentação, pensamos no enxoval, no quarto, nas consultas, nos exames, na melhor escola e em tantos outros detalhes.

Entretanto, poucos pais procuram conhecer o desenvolvimento emocional e cerebral dos filhos. Poucos estudam o que é esperado em cada etapa do crescimento.

E, quando a adolescência chega, muitos sentem que perderam o manual de instruções.

A verdade é que a preparação para essa fase começa muito antes dos primeiros sinais da puberdade. Ela nasce na infância, por meio da construção de vínculos seguros, da presença emocional, do diálogo e de limites consistentes.

Esses elementos servirão de base para a relação quando surgirem os desafios da adolescência

Pexels –  Julia M Cameron

Nem criança, nem adulto

A adolescência é uma fase de transição.

O jovem já não é mais criança, mas também ainda não possui a maturidade emocional e cognitiva de um adulto.

Ao mesmo tempo em que seu corpo muda rapidamente, ele tenta responder perguntas profundas:

  • Quem eu sou?
  • Em que acredito?
  • Qual é o meu lugar no mundo?
  • Quais escolhas quero fazer para a minha vida?

Enquanto busca essas respostas, também aprende a lidar com emoções intensas, impulsos, frustrações e responsabilidades cada vez maiores.

Não é uma tarefa simples. E existe uma explicação científica para isso.

Pexels –  MuffinLand

O cérebro adolescente ainda está em construção

A neurociência explica muito do que vemos no dia a dia. Durante a adolescência, o cérebro passa por uma intensa reorganização.

Conexões neurais pouco utilizadas tendem a ser eliminadas, enquanto aquelas mais frequentemente utilizadas são fortalecidas. Esse processo torna o cérebro mais eficiente, mas também explica por que essa fase costuma ser marcada por tantas oscilações emocionais.

A região responsável pelo planejamento, autocontrole, organização, tomada de decisões, avaliação das consequências e regulação emocional — o córtex pré-frontal — ainda está amadurecendo.

Enquanto isso, o sistema límbico, responsável pelas emoções e pela busca de recompensas imediatas, assume grande parte do comando.

É por isso que muitos adolescentes:

  • agem antes de pensar;
  • mudam de humor rapidamente;
  • assumem riscos desnecessários;
  • sentem as emoções com enorme intensidade;
  • têm dificuldade para prever consequências;
  • parecem dramáticos diante de situações que, para os adultos, parecem pequenas.
Pexels –  cottonbro studio

Isso não significa ausência de responsabilidade nem incapacidade de aprender. Significa que eles ainda estão aprendendo a reconhecer, compreender e regular tudo o que sentem.

Por isso, mais do que julgamentos, eles precisam de adultos que os ajudem a desenvolver essas habilidades.

A rebeldia nem sempre é um problema

Ela pode fazer parte do desenvolvimento saudável.

Uma das maiores angústias dos pais é perceber que aquele filho carinhoso parece ter desaparecido. De repente, ele evita demonstrações públicas de afeto, prefere ficar no quarto, conversa menos com a família, passa a valorizar muito mais os amigos e começa a questionar regras que antes aceitava sem dificuldade.

Embora isso possa assustar, muitos desses comportamentos fazem parte de um processo esperado do desenvolvimento chamado individuação.

O que é individuação?

A individuação é o processo pelo qual o adolescente constrói sua identidade.

Ele precisa descobrir:

  • quem é;
  • no que acredita;
  • quais valores deseja manter;
  • quais escolhas deseja fazer para a própria vida.

É justamente por isso que testa limites, questiona opiniões e busca cada vez mais autonomia.

Na maioria das vezes, essa rebeldia não acontece contra os pais.

Ela faz parte da construção da própria identidade. 

Características comuns desse processo

Cada adolescente vivencia essa fase de maneira única, mas algumas características costumam aparecer:

Pexels – cottonbro studio
  • necessidade intensa de descobrir quem é;
  • maior valorização das amizades;
  • busca por autonomia;
  • necessidade crescente de privacidade;
  • questionamento das regras familiares;
  • sensação de que os pais “não entendem nada”;
  • excesso de confiança nas próprias opiniões;
  • intensas mudanças físicas e emocionais.

Essas características variam de intensidade entre os adolescentes e fazem parte do desenvolvimento esperado.

O papel dos pais também muda

Na infância, protegemos de perto. Na adolescência, continuamos protegendo, mas precisamos abrir espaço para que nossos filhos desenvolvam autonomia. Nossa presença continua sendo necessária, mas precisa assumir uma nova forma. 

Educar um adolescente significa encontrar um equilíbrio delicado entre oferecer liberdade e ensinar responsabilidade.

Não se trata de controlar todos os passos. Também não significa permitir tudo.

O desafio está em acompanhar, orientar e permanecer presente.

Nem controle, nem permissividade

Pais excessivamente controladores costumam recorrer a críticas constantes, sermões, punições, humilhações e vigilância exagerada.

O resultado, muitas vezes, é uma relação baseada no medo, e não na confiança.

Por outro lado, pais permissivos oferecem liberdade sem exigir responsabilidade, resolvem todos os problemas dos filhos e impedem que aprendam com as consequências naturais de suas escolhas. Leia sobre Estilos Parentais https://elainematos.com/parentalidade-consciente-e-estilos-parentais/

O caminho mais saudável costuma estar no equilíbrio entre gentileza e firmeza

Isso significa:

  • orientar sem controlar;
  • acolher sem ser permissivo;
  • corrigir sem humilhar;
  • estabelecer limites com respeito;
  • ensinar responsabilidade por meio do diálogo.

Conexão vem antes da correção

Nenhum adolescente procura ajuda em alguém que o faz sentir vergonha.

Se toda conversa termina em bronca, sermão ou julgamento, ele aprende rapidamente que não vale a pena procurar os pais quando enfrenta dificuldades. 

Pouco a pouco, um muro silencioso começa a ser construído entre eles. Por isso:

Antes de corrigir, é preciso ouvir.

Antes de ensinar, é preciso compreender.

Antes de exigir mudanças, é necessário fortalecer o vínculo.

A conexão não elimina os limites; ela torna os limites mais eficazes.

Pexels – cottonbro studio

A necessidade de privacidade

Muitos pais interpretam o desejo do adolescente de ficar sozinho como afastamento ou rejeição. Nem sempre é assim.

Durante essa fase existe uma necessidade natural de privacidade.

O jovem está reorganizando sua identidade e, muitas vezes, sente vergonha das próprias mudanças físicas, emocionais e sociais.

Respeitar esse espaço não significa abandonar a supervisão. Significa acompanhar sem invadir.

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E quando o adolescente mente?

A mentira costuma preocupar os pais — e com razão. Mas ela também pode revelar algo importante sobre a relação familiar. Alguns adolescentes mentem para evitar punições. Outros escondem informações porque têm medo das reações dos pais.

Quando a comunicação é baseada apenas em críticas ou julgamentos, falar a verdade pode parecer arriscado.

Quanto mais acolhedora, respeitosa e segura for a relação, maiores serão as chances de o adolescente procurar os pais quando realmente precisar.

O que os adolescentes mais precisam dos adultos?

Muito mais do que controle, eles precisam de adultos emocionalmente disponíveis.

Precisam de alguém que:

  • escute antes de julgar;
  • demonstre interesse genuíno;
  • estabeleça limites consistentes;
  • permita escolhas acompanhadas de responsabilidade;
  • incentive a resolução de problemas;
  • substitua críticas por encorajamento;
  • faça acordos claros e respeitosos;
  • transmita a certeza de que o amor não depende de desempenho ou obediência.

A adolescência passa. A relação permanece.

Educar um adolescente talvez seja uma das tarefas mais desafiadoras da parentalidade.

Exige paciência quando a vontade é desistir.

Exige firmeza quando parece mais fácil ceder.

Exige escuta quando tudo o que queremos é corrigir.

Mas também é uma oportunidade única de fortalecer vínculos que poderão durar por toda a vida. A adolescência passa. O cérebro amadurece. As discussões diminuem. Os conflitos encontram novos caminhos. E aquilo que permanece é a relação construída ao longo dessa caminhada.

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Por isso, talvez a pergunta mais importante não seja:

“Como faço meu adolescente me obedecer?”

Mas sim:

“Que tipo de adulto estou ajudando meu filho a se tornar?”

Porque, quando educamos com conhecimento, respeito e presença, não estamos apenas atravessando a adolescência. 

Estamos construindo a relação que desejamos ter com nossos filhos durante toda a vida.

A adolescência é uma fase de profundas transformações, mas ela não dura para sempre. O vínculo que construímos durante esse período, porém, pode permanecer por toda a vida. Talvez esse seja o maior desafio — e também a maior oportunidade — de ser pai ou mãe de um adolescente. 

Até a próxima! Um grande beijo e fiquem com Deus 😉.

Fonte: Disciplina Positiva para Adolescentes - Jane Nelsen e Lynn Lott

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