A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) recomenda que, desde a mais tenra infância, adultos leiam, cantem, conversem e façam rimas com bebês e crianças pequenas. Essas práticas são fundamentais para o desenvolvimento infantil — e vão muito além de preparar para a alfabetização.
Ainda é comum ouvir que “ler para bebês não faz sentido”, já que eles não entenderiam a história. No entanto, essa ideia ignora dois aspectos centrais da leitura na primeira infância:
- o desenvolvimento do pensamento e da capacidade imaginativa;
- a leitura como recurso simbólico para elaborar experiências difíceis e inevitáveis da vida.

O bebê escuta antes de falar
Um dado importante é que o bebê, ao nascer, já reconhece a voz materna e responde a ela. O sistema auditivo começa a se constituir entre o terceiro e o quinto mês de gestação, permitindo ao feto distinguir diferentes aspectos acústicos, como ritmo e entonação.
Desde muito cedo, a criança está imersa na linguagem. Mesmo sem sabermos exatamente o que ela compreende, sabemos que algo é compreendido — e, sobretudo, que um movimento psíquico acontece.
A leitura começa antes dos textos escritos
Quando falamos em leitura para bebês, não estamos falando de ensinar letras ou palavras. A leitura ajuda a organizar o mundo interno do bebê.
A voz do adulto funciona como um continente emocional, ou seja, quando eu leio para um bebê, não estou ensinando uma história. Estou ajudando ele a organizar o que sente. Minha voz vira um lugar seguro onde as emoções cabem.
Segundo o psicanalista e linguista Evélio Cabrejo-Parra, a leitura começa antes dos textos escritos: começa na voz, no ritmo, na entonação e no vínculo. Essa perspectiva pode ser aprofundada na entrevista com Evélio Cabrejo-Parra sobre leitura na primeira infância https://emilia.org.br/evelio-cabrejo-parra/
O bebê “lê” o mundo muito antes de saber ler palavras. Ele lê:
- o tom da voz,
- as pausas,
- o afeto presente na fala.
Quando um adulto conversa, canta ou lê para um bebê, está construindo algo essencial: a relação da criança com a linguagem.
Como acontece a leitura para bebês?
A leitura para bebês acontece quando o adulto:
- fala olhando nos olhos;
- conta histórias, mesmo que o bebê ainda não compreenda o enredo;
- repete palavras, sons e ritmos;
- lê livros em voz alta, com calma e presença.
Esses momentos não servem para “adiantar” o aprendizado escolar. Eles servem para que o bebê associe a linguagem a segurança, prazer e vínculo — base indispensável para que, no futuro, a criança se interesse genuinamente pelos livros e pela leitura.
Algumas orientações importantes para os pais:
- É absolutamente normal que a criança queira ouvir a mesma história muitas vezes.
- Os pais precisam se permitir amar a literatura infantil, e não apenas “usá-la” como ferramenta.
- Se a criança comenta, aponta ou reage à leitura, valorize esse momento.
- Apresente os livros desde cedo, sem exigências.
Que livros oferecer?
- livros que amamos ler;
- livros que ajudam a dar sentido à vida;
- obras de qualidade literária, não escolares e não moralizantes.

Livros de qualidade são aqueles que:
- estimulam a criatividade;
- falam com a criança, e não apenas sobre ela;
- sejam inteligentes;
- trazem boas imagens, texto sensível e espaço para interpretação.
Durante a leitura:
- converse sobre o livro;
- nomeie o que aparece nas imagens;
- leia com a criança no colo ou nos braços;
- permita que ela escolha o livro, quando possível;
- use um tom afetivo.
A leitura como política pública
A Colômbia é referência no incentivo à leitura na primeira infância, com políticas públicas que integram bibliotecas, educação e afetividade. Programas como Espantapájaros e Bom Começo (Medellín) criaram espaços específicos para bebês em bibliotecas, valorizando a contação de histórias como vínculo.
Na Inglaterra e na França, há mais de 25 anos existem programas de formação de leitura para bebês. Na Inglaterra, as crianças recebem kits de livros no primeiro ano de vida e novamente aos 4 e 5 anos. No Brasil, destaca-se o projeto do Itaú Social.
Há também estudos em UTIs neonatais com bebês de baixo peso, nos quais a leitura feita por adultos mostrou benefícios importantes quando comparada a bebês que não receberam essa estimulação — sem contar o vínculo afetivo construído nesses momentos.
Leitura por faixa etária
0 a 6 meses – Ideia central: o bebê lê a voz, não o texto.
O bebê percebe:
- ritmo,
- pausas,
- intensidade,
- emoção da voz.
Tipo de leitura:
- leitura em voz alta, lenta e repetida;
- cantigas, parlendas, textos curtos;
- o livro pode estar presente, mas o essencial é a voz viva.

6 a 12 meses – Ideia central: articulação entre voz, corpo e objeto-livro.
- o bebê explora o livro com o corpo (morde, bate, vira páginas);
- o livro se torna um objeto relacional;
- a leitura é um ato compartilhado;
- a repetição é fundamental.
Tipo de leitura:
- livros de pano, plástico ou cartonados;
- textos com musicalidade e repetição;
- nomeação de imagens + leitura em voz alta.
1 a 2 anos – Ideia central: entrada na linguagem simbólica.
- associação entre palavras, imagens e ações;
- o adulto empresta palavras para o que a criança ainda não consegue dizer;
- leitura como apoio para nomear emoções e experiências.
Tipo de leitura:
- histórias simples, com imagens claras;
- livros do cotidiano;
- releituras frequentes.
2 a 3 anos – Ideia central: a criança começa a habitar a narrativa.
- antecipa trechos, completa frases, pede o mesmo livro;
- o livro vira espaço de elaboração simbólica;
- organiza tempo, espaço e relações.
Tipo de leitura:
- histórias curtas com começo, meio e fim;
- livros sobre emoções e rotina;
- leitura dialogada, com pausas e comentários.
3 a 4 anos – Ideia central: a criança amplia o imaginário e começa a elaborar emoções pela narrativa.

Nessa fase, a criança:
- já acompanha histórias mais longas;
- começa a se identificar com personagens;
- usa a narrativa para falar de medos, desejos e conflitos.
O que ler:
- histórias curtas com início, meio e fim claros;
- contos com repetição, ritmo e previsibilidade;
- livros que abordem emoções (medo, raiva, alegria, ciúme);
- histórias do cotidiano (família, escola, amizade).
Como ler:
- com pausas;
- acolhendo comentários;
- sem pressa de terminar a história;
- permitindo releituras frequentes.
4 a 5 anos – Ideia central: a criança começa a compreender conflitos e relações sociais.
A narrativa ajuda a criança a:
- entender regras sociais;
- elaborar frustrações;
- diferenciar fantasia e realidade;
- organizar tempo e causalidade.
O que ler:
- histórias com pequenos conflitos e resoluções;
- livros que tragam diversidade de personagens;
- contos acumulativos, clássicos adaptados;
- livros que estimulem perguntas.
Como ler:
- dialogando (“o que você acha que vai acontecer?”);
- relacionando a história à vida da criança, sem moralizar;
- respeitando o ritmo e o interesse dela.

5 a 6 anos – Ideia central: a criança começa a se posicionar como leitora.
Aqui, a leitura:
- fortalece identidade;
- amplia vocabulário;
- prepara o terreno para a alfabetização, sem antecipá-la.
O que ler:
- histórias mais longas;
- livros com linguagem mais elaborada;
- narrativas que provoquem reflexão;
- poesia, adivinhas, parlendas.
Como ler:
- alternando leitura do adulto e participação da criança;
- incentivando que ela reconte a história;
- valorizando hipóteses e interpretações.
A leitura na primeira infância se constrói no vínculo e na presença. Pensando nessa leitura que acontece no encontro entre adulto e criança, escrevi um livro infantil para leitura compartilhada, criado para ser lido com calma, repetição e afeto https://elainematos.com/quero-falar-livro-infantil-sobre-emocoes-e-silencio-emocional/
Até a próxima! Um grande beijo e fiquem com Deus 😉.
Fonte: A literatura na primeira infância -Leda Maria Codeço Barone
Leitura para bebês - Profa. Ana Flávia Castanho - Itaú
