Leitura na primeira infância

A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) recomenda que, desde a mais tenra infância, adultos leiam, cantem, conversem e façam rimas com bebês e crianças pequenas. Essas práticas são fundamentais para o desenvolvimento infantil — e vão muito além de preparar para a alfabetização.

Ainda é comum ouvir que “ler para bebês não faz sentido”, já que eles não entenderiam a história. No entanto, essa ideia ignora dois aspectos centrais da leitura na primeira infância:

  • o desenvolvimento do pensamento e da capacidade imaginativa;
  • a leitura como recurso simbólico para elaborar experiências difíceis e inevitáveis da vida.
Pexels – Nelly Aran

O bebê escuta antes de falar

Um dado importante é que o bebê, ao nascer, já reconhece a voz materna e responde a ela. O sistema auditivo começa a se constituir entre o terceiro e o quinto mês de gestação, permitindo ao feto distinguir diferentes aspectos acústicos, como ritmo e entonação.

Desde muito cedo, a criança está imersa na linguagem. Mesmo sem sabermos exatamente o que ela compreende, sabemos que algo é compreendido — e, sobretudo, que um movimento psíquico acontece.

A leitura começa antes dos textos escritos

Quando falamos em leitura para bebês, não estamos falando de ensinar letras ou palavras. A leitura ajuda a organizar o mundo interno do bebê.
A voz do adulto funciona como um continente emocional, ou seja, quando eu leio para um bebê, não estou ensinando uma história. Estou ajudando ele a organizar o que sente. Minha voz vira um lugar seguro onde as emoções cabem.

Segundo o psicanalista e linguista Evélio Cabrejo-Parra, a leitura começa antes dos textos escritos: começa na voz, no ritmo, na entonação e no vínculo. Essa perspectiva pode ser aprofundada na entrevista com Evélio Cabrejo-Parra sobre leitura na primeira infância https://emilia.org.br/evelio-cabrejo-parra/

O bebê “lê” o mundo muito antes de saber ler palavras. Ele lê:

  • o tom da voz,
  • as pausas,
  • o afeto presente na fala.

Quando um adulto conversa, canta ou lê para um bebê, está construindo algo essencial: a relação da criança com a linguagem.

Como acontece a leitura para bebês?

A leitura para bebês acontece quando o adulto:

  • fala olhando nos olhos;
  • conta histórias, mesmo que o bebê ainda não compreenda o enredo;
  • repete palavras, sons e ritmos;
  • lê livros em voz alta, com calma e presença.

Esses momentos não servem para “adiantar” o aprendizado escolar. Eles servem para que o bebê associe a linguagem a segurança, prazer e vínculo — base indispensável para que, no futuro, a criança se interesse genuinamente pelos livros e pela leitura.

Algumas orientações importantes para os pais:

  • É absolutamente normal que a criança queira ouvir a mesma história muitas vezes.
  • Os pais precisam se permitir amar a literatura infantil, e não apenas “usá-la” como ferramenta.
  • Se a criança comenta, aponta ou reage à leitura, valorize esse momento.
  • Apresente os livros desde cedo, sem exigências.

Que livros oferecer?

  • livros que amamos ler;
  • livros que ajudam a dar sentido à vida;
  • obras de qualidade literária, não escolares e não moralizantes.
Pexels – Lina Kivaka 

Livros de qualidade são aqueles que:

  • estimulam a criatividade;
  • falam com a criança, e não apenas sobre ela;
  • sejam inteligentes;
  • trazem boas imagens, texto sensível e espaço para interpretação.

Durante a leitura:

  • converse sobre o livro;
  • nomeie o que aparece nas imagens;
  • leia com a criança no colo ou nos braços;
  • permita que ela escolha o livro, quando possível;
  • use um tom afetivo.

A leitura como política pública

A Colômbia é referência no incentivo à leitura na primeira infância, com políticas públicas que integram bibliotecas, educação e afetividade. Programas como Espantapájaros e Bom Começo (Medellín) criaram espaços específicos para bebês em bibliotecas, valorizando a contação de histórias como vínculo.

Na Inglaterra e na França, há mais de 25 anos existem programas de formação de leitura para bebês. Na Inglaterra, as crianças recebem kits de livros no primeiro ano de vida e novamente aos 4 e 5 anos. No Brasil, destaca-se o projeto do Itaú Social.

Há também estudos em UTIs neonatais com bebês de baixo peso, nos quais a leitura feita por adultos mostrou benefícios importantes quando comparada a bebês que não receberam essa estimulação — sem contar o vínculo afetivo construído nesses momentos.

Leitura por faixa etária

 0 a 6 mesesIdeia central: o bebê lê a voz, não o texto.

O bebê percebe:

  • ritmo,
  • pausas,
  • intensidade,
  • emoção da voz.

Tipo de leitura:

  • leitura em voz alta, lenta e repetida;
  • cantigas, parlendas, textos curtos;
  • o livro pode estar presente, mas o essencial é a voz viva.
Pexels – Alexander Mass

6 a 12 meses – Ideia central: articulação entre voz, corpo e objeto-livro.

  • o bebê explora o livro com o corpo (morde, bate, vira páginas);
  • o livro se torna um objeto relacional;
  • a leitura é um ato compartilhado;
  • a repetição é fundamental.

Tipo de leitura:

  • livros de pano, plástico ou cartonados;
  • textos com musicalidade e repetição;
  • nomeação de imagens + leitura em voz alta.

 1 a 2 anos – Ideia central: entrada na linguagem simbólica.

  • associação entre palavras, imagens e ações;
  • o adulto empresta palavras para o que a criança ainda não consegue dizer;
  • leitura como apoio para nomear emoções e experiências.

Tipo de leitura:

  • histórias simples, com imagens claras;
  • livros do cotidiano;
  • releituras frequentes.

 2 a 3 anos – Ideia central: a criança começa a habitar a narrativa.

  • antecipa trechos, completa frases, pede o mesmo livro;
  • o livro vira espaço de elaboração simbólica;
  • organiza tempo, espaço e relações.

Tipo de leitura:

  • histórias curtas com começo, meio e fim;
  • livros sobre emoções e rotina;
  • leitura dialogada, com pausas e comentários.

3 a 4 anos – Ideia central: a criança amplia o imaginário e começa a elaborar emoções pela narrativa.

Pexels – Polesie Toys

Nessa fase, a criança:

  • já acompanha histórias mais longas;
  • começa a se identificar com personagens;
  • usa a narrativa para falar de medos, desejos e conflitos.

O que ler:

  • histórias curtas com início, meio e fim claros;
  • contos com repetição, ritmo e previsibilidade;
  • livros que abordem emoções (medo, raiva, alegria, ciúme);
  • histórias do cotidiano (família, escola, amizade).

Como ler:

  • com pausas;
  • acolhendo comentários;
  • sem pressa de terminar a história;
  • permitindo releituras frequentes.

4 a 5 anos – Ideia central: a criança começa a compreender conflitos e relações sociais.

A narrativa ajuda a criança a:

  • entender regras sociais;
  • elaborar frustrações;
  • diferenciar fantasia e realidade;
  • organizar tempo e causalidade.

O que ler:

  • histórias com pequenos conflitos e resoluções;
  • livros que tragam diversidade de personagens;
  • contos acumulativos, clássicos adaptados;
  • livros que estimulem perguntas.

Como ler:

  • dialogando (“o que você acha que vai acontecer?”);
  • relacionando a história à vida da criança, sem moralizar;
  • respeitando o ritmo e o interesse dela.
Pexels – cottonbro studio

 5 a 6 anos – Ideia central: a criança começa a se posicionar como leitora.

Aqui, a leitura:

  • fortalece identidade;
  • amplia vocabulário;
  • prepara o terreno para a alfabetização, sem antecipá-la.

O que ler:

  • histórias mais longas;
  • livros com linguagem mais elaborada;
  • narrativas que provoquem reflexão;
  • poesia, adivinhas, parlendas.

Como ler:

  • alternando leitura do adulto e participação da criança;
  • incentivando que ela reconte a história;
  • valorizando hipóteses e interpretações.

A leitura na primeira infância se constrói no vínculo e na presença. Pensando nessa leitura que acontece no encontro entre adulto e criança, escrevi um livro infantil para leitura compartilhada, criado para ser lido com calma, repetição e afeto https://elainematos.com/quero-falar-livro-infantil-sobre-emocoes-e-silencio-emocional/

Até a próxima! Um grande beijo e fiquem com Deus 😉.

Fonte: A literatura na primeira infância -Leda Maria Codeço Barone
Leitura para bebês - Profa. Ana Flávia Castanho - Itaú

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