Há quem acredite que educar filhos com amor é bobagem. Para essas pessoas educar exige pulso firme – e pulso firme em sua compreensão não combina com amor. Outros confiam apenas no que a ciência comprova, desconsiderando tudo o que parece abstrato, subjetivo ou emocional. Mas quem disse que o amor não pode ser comprovado cientificamente?
Talvez o problema não esteja na ausência de evidências, mas na resistência em enxergar. A ciência já demonstrou, de inúmeras formas, que o amor, o vínculo e a qualidade das relações moldam o cérebro, o comportamento e a saúde emocional. Para compreender isso, é preciso disposição para ir além do visível e reconhecer que somos seres biológicos, emocionais e relacionais — e que essas dimensões não funcionam de forma isolada.
As marcas da infância
Como pais, atravessamos diversas situações ao longo da vida em que nos sentimos desamparados, invalidados ou emocionalmente sozinhos. Essas experiências deixam marcas profundas, muitas vezes invisíveis, que carregamos até a vida adulta sem perceber. Afinal, o que acontece na infância não fica na infância.
A falta de informação e, muitas vezes, a ausência de recursos emocionais dos próprios pais para lidar com seus filhos podem gerar prejuízos significativos. Crianças que crescem sem acolhimento e regulação emocional tendem a reproduzir essas dificuldades nas relações — ainda na infância e, sobretudo, na vida adulta.
Ainda no ventre materno

O desenvolvimento emocional não começa no nascimento. Ainda no útero, o bebê já inicia a formação de sistemas cerebrais responsáveis pela autorregulação e pela manutenção da estabilidade interna. Esses sistemas são influenciados não apenas pela alimentação da mãe, mas também pelos agentes bioquímicos das emoções que circulam em seu organismo.
Hormônios liberados em estados emocionais frequentes — como estresse, ansiedade ou tranquilidade — atravessam a barreira placentária e participam da organização do cérebro fetal. O ambiente intrauterino, portanto, não é neutro.
Genes não determinam destinos
Costumamos ouvir que nossos pais são nossas primeiras e principais referências — e isso é verdade. Mesmo assim, há quem acredite que “bons genes” garantam uma vida emocionalmente saudável. A ciência mostra o contrário.
Cada célula do nosso corpo carrega cerca de 30 mil genes, mas não somos capazes de ativá-los deliberadamente. A ativação genética depende do ambiente. Em outras palavras, os genes são acionados — ou silenciados — pelas experiências vividas.
Por isso, engana-se quem pensa que o bebê “não sabe de nada”. Os dois primeiros anos de vida são decisivos: nesse período, o sistema nervoso está sendo estruturado e moldado pela experiência. O comportamento dos pais ensina à criança o que são emoções e como lidar com elas. Daí a importância fundamental da autorregulação parental.

Estresse materno
Existe um ditado popular que afirma que o estresse “emburrece”. Embora simplista, ele tem fundamento científico. O estresse crônico pode prejudicar a memória, a aprendizagem e diversas funções cognitivas.
Estudos indicam que níveis moderados de estresse podem ser adaptativos. No entanto, pesquisas mais recentes mostram que até mesmo estressores considerados “leves”, quando persistentes, podem interferir no desenvolvimento dos sistemas emocionais do feto.
O desafio está em mensurar esse estresse, já que muitas mulheres vivem em níveis tão elevados de tensão que passam a considerá-los normais. O corpo adoece silenciosamente. Nesses casos, os bebês tendem a nascer com baixo peso e, na vida adulta, podem apresentar maior risco para doenças como diabetes, hipertensão e problemas cardiovasculares.
O excesso de hormônios do estresse, especialmente o cortisol, afeta o desenvolvimento dos sistemas metabólicos e nutricionais do feto, aumentando a secreção de leptina — hormônio que regula o apetite. Isso pode predispor ao acúmulo de gordura abdominal. Além disso, bebês expostos a níveis elevados de cortisol tendem a nascer mais irritados, choram mais e apresentam respostas ao estresse mais intensas ao longo da vida.
O estresse materno também interfere no sistema serotoninérgico, essencial para a regulação emocional, reduzindo a disponibilidade de serotonina para o feto.

Estresse infantil
Quando um bebê chora e é sistematicamente ignorado, ocorre um risco significativo ao seu desenvolvimento. Altos níveis de cortisol nos primeiros meses de vida podem comprometer a formação de outros sistemas neurotransmissores ainda imaturos.
Bebês que vivenciam mães emocionalmente distantes apresentam níveis mais baixos de noradrenalina, adrenalina e dopamina. Em situações de estresse, esses sistemas tendem a funcionar de maneira desorganizada, dificultando, no futuro, a capacidade de autorregulação emocional.
É fundamental lembrar: bebês não controlam seu próprio estresse. Eles dependem de adultos emocionalmente disponíveis para regular seus estados internos. O cuidado não se limita à alimentação, mas inclui o toque, o colo, o ninar, os olhares e os gestos de afeto.
Um estudo utilizando ressonância magnética demonstrou que o principal fator associado à redução do volume do hipocampo em crianças não era a pobreza ou o baixo nível educacional dos pais, mas sim a hostilidade parental. A ausência de apoio emocional é um dos estressores mais nocivos ao desenvolvimento infantil.
Crianças amadas e emocionalmente reguladas têm maior probabilidade de se tornarem adultos capazes de se autorregular.

Ansiedade e depressão
Filhos de mães que vivenciam ansiedade e depressão apresentam maior dificuldade para lidar com o estresse e tendem a demorar mais para se recuperar emocionalmente. Também há maior risco para problemas comportamentais, emocionais e sintomas relacionados ao TDAH.
Vivemos tempos em que gestos de cuidado e gentileza do homem para com a mulher tornaram-se menos frequentes. No entanto, a gestação é um período de profundas transformações físicas, hormonais e emocionais. A mulher precisa de apoio, descanso, acolhimento emocional e, sempre que possível, segurança financeira. Quando o apoio financeiro não é viável, o cuidado emocional continua sendo indispensável — e não tem custo.
Mulheres que tiveram infâncias marcadas por sofrimento emocional ou histórico de depressão possuem maior risco de desenvolver depressão durante a gestação.

Álcool
O consumo de álcool em qualquer fase da gestação pode causar danos. Nas primeiras semanas, os prejuízos são ainda mais severos, afetando diretamente o desenvolvimento embrionário. A Síndrome Alcoólica Fetal é uma das consequências mais conhecidas, mas mesmo exposições posteriores podem comprometer gravemente o cérebro fetal, resultando em dificuldades de aprendizagem, atenção, comunicação e empatia.
Córtex orbitofrontal
O córtex orbitofrontal começa a amadurecer por volta do final do primeiro ano de vida. Essa região é essencial para a regulação do comportamento social e emocional. Seu desenvolvimento ocorre principalmente por meio da estimulação social, como brincadeiras, contato visual, toque e interações afetivas.
Adultos com redes sociais mais amplas apresentam, em média, um córtex orbitofrontal mais desenvolvido. Da mesma forma, bebês que não vivenciam interações individualizadas com adultos amorosos tendem a ter prejuízos nesse desenvolvimento.
Por isso, estudos sugerem que, ao invés de estimular bebês precocemente com cartões, letras ou números, é muito mais benéfico investir em carinho, abraços, beijos e diálogos afetivos. Caso as relações sociais sejam escassas até os três anos de idade, as chances de recuperação plena diminuem significativamente.
Um bebê não desenvolve essas funções sozinho. Ele precisa de vínculos reais, consistentes e amorosos.

Uma mensagem de esperança
A qualidade de vida emocional da mãe é compartilhada com o feto — não apenas no corpo, mas também nas emoções. Ainda assim, nem tudo está perdido. Mesmo gestações marcadas por conflitos não determinam, de forma definitiva, o futuro da criança.
Muitos sistemas regulatórios continuam em desenvolvimento após o nascimento. Um vínculo positivo, especialmente no primeiro ano de vida, pode reorganizar trajetórias. Onde há amor investido, há possibilidade de transformação.
E vale lembrar: pais constantemente estressados têm mais dificuldade de se autorregular — e, consequentemente, maiores desafios para regular emocionalmente seus filhos.
Até a próxima! Um grande beijo e fiquem com Deus 😉.

Fonte: Livro: Por que o amor é importante. Sue Gerhardt
